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Aportes iniciais sobre comunicação e democracia em tempos digitais

  • Foto do escritor: Obs. da Democracia UFS
    Obs. da Democracia UFS
  • 23 de ago. de 2019
  • 5 min de leitura

As últimas décadas viram de perto uma transformação importante nos laços entre comunicação e democracia. Se há pouco mais de 20 anos os meios de comunicação tradicionais tinham relativo domínio sobre a esfera de visibilidade pública, sobre aquilo que a sociedade sabe e sente com relação àqueles que a governam, hoje este poder está menos centralizado, graças às práticas de comunicação (sobre) política no ambiente digital.


A era massiva, dos jornais, do rádio e da TV, viu florescer uma verdadeira cena política - no sentido teatral do termo. Como bem observou Wilson Gomes em “Transformações da política na era da comunicação de massa”, em sociedades democráticas modernas, governar demanda, entre outras coisas, produzir uma imagem do governo e seus líderes que favoreça a adesão da opinião pública à sua agenda e às suas decisões. E a produção dessa imagem atravessa, necessariamente, instituições e agentes não do campo da política, mas dos campos da comunicação e do jornalismo. Neste contexto, a relação entre políticos e sociedade é mediada não apenas da perspectiva do meio, no seu aspecto técnico. O poder de representação é disputado entre agentes políticos, que orientam seu comportamento de maneira que sua imagem lhes favoreça politicamente; e agentes do campo jornalístico, que têm seus próprios valores e interesses nesta mediação. Para o cidadão comum, o conhecimento e a opinião sobre o que se passa no mundo da política depende, em maior ou menor medida, daquilo que se passa na telinha da TV.


Nos anos 90 e 2000, a emergência das tecnologias digitais de comunicação, e especialmente a popularizacão da internet, traz a esperança das possibilidades de acesso direto às informações sobre a gestão de governos, de participação remota dos cidadãos nas decisões políticas e do estabelecimento de um canal imediato de diálogo entre governantes e sociedade civil. De certa forma, a o potencial democrático das tecnologias da comunicação é uma bandeira presente pelo menos desde os anos 1950, no discurso de McLuhan - que também defendia a necessidade de educação para o pleno exercício da cidadania na “aldeia global”. São diversos os estudos que tratam da relação entre comunicação e democracia, realizados desde distintas perspectivas e áreas do conhecimento (como as pesquisas de Raymond Williams, Pierre Bourdieu, Noam Chomsky, Stuart Hall, Néstor García Canclini, Marilena Chauí e Pedrinho Guareschi, só para citar alguns), que nos ajudaram e ainda nos ajudam a compreender mais profundamente os processos que nos levaram a chegar até aqui.


Mas saltemos para 2019. Se o twitter é a nova ágora, talvez seja o caso de pensar não no que as tecnologias da comunicação podem fazer pela democracia, mas que democracia, afinal, é essa que temos em mente e quais são as reais possibilidades (e limitações) que a concepção liberal de democracia nos oferece. Não há dúvida de que o acesso em larga escala, a ubiquidade e a digitalização da vida social aumentaram a participação dos brasileiros nos assuntos da política. Por mais que a TV ainda tenha o seu espaço consolidado nos lares de grande parte da população brasileira, não há hora do dia em que um indivíduo não receba (e compartilhe) no seu whatsapp um meme, um vídeo, uma notícia verdadeira ou falsa sobre os protagonistas da vida pública. O que não impede a proliferação de discursos de ódio e do “político incorreto”, do racismo, da homofobia, do preconceito contra todo tipo de minoria, do exercício reiterado de condutas claramente anti-democráticas, enfim, praticada à larga nos ambientes digitais. A julgar pelo que aparece nas timelines, o debate político cresceu em quantidade, mas não em qualidade.


Se assistimos atônitos a um verdadeiro abrir das portas do inferno no que toca ao respeito às diferenças e aos valores humanistas mais básicos rolando dia a dia nas telas dos nossos smartphones, não é verdade que a causa seja a tecnologia. Tem, sim, relação com um uso específico que dela se faz, e que só se faz porque o contexto social o permite e, mais que isto, o legitima. O sociólogo Manuel Castells já alertava:

A elasticidade da Internet a torna particularmente suscetível a intensificar as tendências contraditórias presentes em nosso mundo. Nem utopia nem distopia, a Internet é a expressão de nós mesmos através de um código de comunicação específico, que devemos compreender se quisermos mudar nossa realidade.
(CASTELLS, 2001, p. 14).


Apliquemos essa ideia à nossa realidade. Quando o presidente da república utiliza sites de redes sociais para questionar se "não havia ninguém para dar um tiro" no morador de rua que atacou duas pessoas no Rio de Janeiro durante um surto psicótico; ou quando fala em “doutrinação ideológica” para criticar estudantes que se manifestavam contra o machismo e a homofobia, abre-se caminho para que outros, que pensam como ele, se sintam livres de constrangimentos sociais para expressar seu pensamento, ainda que desconsiderem valores humanos e pactos democráticos. As redes têm a propriedade de agregar e colocar em contato sujeitos ideologicamente próximos que, juntos, certamente são politicamente mais fortes e podem produzir verdadeiros estragos a um projeto de democracia plena, em que todos tenham igualdade de direitos e oportunidades. Associe-se a isso o fato de vivermos um momento de crise econômica e desconfiança dos sistemas políticos em nível global, e a comunicação em rede e instantânea cumpre seu papel de acelerar os processos disparados no seio da sociedade - para o bem ou para o mal.


As mesmas plataformas têm sido palco, por parte dos representantes do governo eleito, de ataques à imprensa. Antes de completar 100 dias de governo, Bolsonaro utilizou o twitter para divulgar uma informação distorcida a respeito de uma jornalista que investigava seu filho Flávio, além de já ter agredido verbalmente diversos jornalistas, como é o caso de uma repórter da Folha em maio deste ano. Vemos o mesmo comportamento em outros membros de sua equipe, como o ministro da educação que gasta parte do seu tempo chamando a "Globo/Marinho" de mentirosa. Ainda mais recentemente temos presenciado diversos ataques do atual governo ao jornalista Glenn Greenwald, editor do The Intercept, devido às diversas reportagens que este site e outros veículos de comunicação têm divulgado sobre mensagens que Deltan Dallagnol trocou com o então juiz e atual ministro da justiça, Sérgio Moro, e outros procuradores da operação Lava Jato, que se comprovadas apresentam “más condutas sérias e sistemáticas” por parte da operação e revelam fortes ataques à nossa democracia, colocando em questão a legitimidade do já controverso processo eleitoral de 2018.


Importante observar que não se trata de um fenômeno localizado. O modus operandi dos líderes do executivo brasileiro na comunicação é claramente inspirado nas estratégias do atual presidente estadunidense, Donald Trump, que utiliza o twitter para desacreditar veículos e profissionais da imprensa contrários às suas convicções, e para atacar opositores políticos - a exemplo do recente episódio em que sugeriu a quatro congressistas de descendência estrangeira que voltassem para trabalhar nos seus países de origem. O recém-eleito primeiro-ministro da Inglaterra, Boris Johnson, é conhecido pelo mesmo padrão de comportamento público nas redes. Além disso, em comum, há o fato de que se tratam de lideranças de extrema-direita.


Todo esse contexto nos leva a pensar se a democracia estava preparada para o mundo digital. Como nos lembra Sérgio Amadeu da Silveira (2014, p. 29), “as disputas tecnológicas atuais são disputas cada vez mais políticas”. Sem ignorar o que este novo universo trouxe de positivo, podemos refletir que os algoritmos, a exposição de nossa privacidade (individual e coletiva) e as distintas bolhas em que estamos inseridos acabam atuando como mecanismos de desinformação. É urgente que comecemos a pensar as consequências que esta nova era nos traz cotidianamente, além de buscar caminhos para que a comunicação digital possa fortalecer nossas instituições democráticas, e não o contrário.





REFERÊNCIAS


CASTELLS, M. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Trad.: Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.


GOMES, W. Transformações da política na era da comunicação de massa. São Paulo: Paulus, 2004.


SILVEIRA, S. A.; BRAGA, S.; PENTEADO, C. (orgs.). Cultura, política e ativismo nas redes digitais. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2014.

 
 
 
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